Cristina tem uma rotina conturbada. Trabalha 8 horas por dia, de segunda a segunda, em uma pequena lanchonete na estação Brás da CPTM. Atende todo tipo de pessoa e ao constante barulho da estação nos horários de pico. A cada dia que passa, porém, o excesso de ruído a incomoda menos: Cristina vem perdendo a audição gradualmente, devido a uma perfuração no tímpano quando ela tinha três anos. O problema agravou-se ainda mais na infância, pois a criança acompanhava a mãe nos clubes onde ela trabalhava. Nadar era seu maior hobby.
A recomendação médica na época era de que a menina fosse operada até os sete anos de idade. Somente aos 23 anos ela passou pela primeira cirurgia, quando já estava em São Paulo, vinda de Crato, no Ceará, onde nasceu. O médico dizia na época: "sem essa cirurgia não escapa". Cristina poderia ficar completamente surda. Aos 25 fez a segunda operação e sua audição ficou muito sensível. Todo som que ela ouve é muito ampliado. Ela comenta que por causa disso só consegue ouvir em meio ao barulho , pois no silêncio sofre com intensas dores de cabeça, causadas pela alta frequência que vibra o tímpano.
Mesmo assim, ela se interessa em aprender a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), tanto para se comunicar com fregueses surdos, quanto para reforçar a comunicação quando sua audição falha. Com 80% de perda auditiva na orelha esquerda, ela se esforça em manter seu emprego para conseguir dinheiro para a terceira cirurgia. "Eu tenho medo", desabafa Cristina. Ela tem predisposição a infecções, o que complicou as duas cirurgias de reparo de tímpano e a cesariana de seu primeiro filho, que precisou ser refeita devido a uma infecção hospitalar.
Sônia ficou surda aos 11 anos de idade devido à meningite. Não conhecia a língua de sinais e teve de aprender a fazer leitura orofacial (leitura dos lábios e das expressões faciais). Mesmo assim, só compreendia 40% das palavras ditas em uma conversação. Ela ficava aflita mas o apoio familiar colaborou bastante. "Eu era surda e não sabia! A lingua de sinais e o contato com a comunidade surda me proporcionou um bem estar enorme. Eu podia enfim, trocar pareceres com outro ser que me compreendia na integra, porque sentia na pele as mesmas coisas", lembra.
Ela ingressou na comunidade surda há seis anos, quando aprendeu a língua de sinais. Atualmente dá aulas de LIBRAS na USP (Universidade de São Paulo). A rotina de trabalho e estudo a mantém integrada com outros surdos e com os debates sobre acessibilidade aos deficientes físicos. Criou um blog sobre surdez em abril deste ano. Ele está desatualizado devido às suas pesquisas de iniciação científica sobre surdez. Quando questionada se a comunidade surda é bem exposta na TV e cinema, ela desaprovou o que é visto, pois são produções feitas com objetivos puramente políticos e financeiros.
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