Avanços na acessibilidade




Há aproximadamente 250 mil surdos na cidade de São Paulo. Segundo levantamento feito pela Secretaria da Saúde, eles representam menos de 3% da população paulistana . Conversamos com Odirlei de Faria, 27, tradutor intérprete de LIBRAS na CELIG (Central de LIBRAS), um programa da prefeitura iniciado no final do ano passado para atender aos surdos de São Paulo. Ele fala um pouco mais como funciona a língua de sinais e a evolução da acessibilidade no Brasil.

Por que não existe uma língua universal de sinais?

A língua de sinais é uma língua como qualquer outra de outro país. Assim como não existe uma língua universal oral, também não existe uma língua universal de sinais para todos os surdos do mundo conversar, porque existe a ligação entre a cultura do país, do local e a língua. A história da construção da língua, a história da construção do povo é diferente, então a mesma relação história, cultura e construção de língua é da mesma maneira para a língua oral e para a língua de sinais.

Quais são as diferenças entre os termos surdo, surdo-mudo e deficiente auditivo?

É uma terminologia. O termo correto, que nós utilizamos, é “pessoa surda” ou “surdo”, embora não esteja errado dizer “pessoa como deficiência auditiva”. Os termos para identificar uma pessoa com deficiência auditiva que não são tão acertados são: mudo, surdo-mudo, mudinho... Que não dizem respeito à questão do surdo. Por exemplo: a mudez. A mudez existe, mas não é necessária à questão da surdez. O conceito de surdo-mudo também não tem muita precisão, é um pouco pejorativo.

Na língua portuguesa houve recentemente uma reforma ortográfica. Existe isso na língua de sinais?

No conceito existe, mas não de uma maneira tão formal como na língua portuguesa. A língua portuguesa já é estabelecida, já tem vários autores que escrevem sobre gramática, essa coisa toda. A língua portuguesa já está oficialmente convencionalizada, pronta. A língua de sinais está em construção. A língua portuguesa já tem uma série de regras, uma série de coisas estabelecidas que se partilha na comunidade que usa, e não só na comunidade que usa, mas entre os professores de línguas. Enquanto a língua portuguesa tem tudo isso definido e partilhado, a língua de sinais está sendo construída hoje no Brasil. Ela está sendo construída, inclusive as regras gramaticais, a estrutura gramatical, a ordem fonológica, a sintaxe da língua de sinais. Reforma ortográfica existe sempre na língua de sinais, principalmente por causa do regionalismo. Cada região brasileira possui uma gama de sinais específica que diz respeito ao mesmo significado em outra região, o mesmo regionalismo da língua portuguesa.

Existe alguma técnica para diferenciar palavras parecidas?

A língua de sinais é uma língua, não é uma linguagem somente. Como, por exemplo, o braile. O braile tem certo número de códigos que representam uma infinidade de combinações e, de certa maneira, é uma linguagem, uma linguagem de códigos.

A língua de sinais não é só um espelhamento do português. É uma língua independente. A língua de sinais brasileira é independente do português. A língua de sinais americana é independente do inglês... Aqui no Brasil, a língua de sinais não tem uma fundamentação com o português. Então a entonação... Essa coisa toda vai ser trabalhada na língua de sinais com o conceito da interrogação, da exclamação. O conceito de conjunções, preposições, essa coisa toda entra com um sinal, com uma expressão facial ou corporal. Isso é elemento gramatical na língua. Não usar isso é empobrecer, é tirar uma exclamação, uma entonação, uma coisa da pronúncia.

Quais as dificuldades de ensinar uma criança que nasce surda?

Existe uma diferença, por exemplo, uma criança surda que nasça em uma família de surdos praticamente não vai ter dificuldade nenhuma. Os pais são surdos, a língua de sinais circula ali e ela já cresce com a língua de sinais. Existem estudos que mostram que crianças surdas filhas de pais surdos tem uma caminhar estudantil, social, um caminhar do aprendizado no mesmo tempo que as crianças ouvintes. Agora, se uma criança surda é filha de pais ouvintes, já está estabelecida uma dificuldade de comunicação. Por ser surda, naturalmente ela vai se comunicar a partir de gestos até estabelecer a língua de sinais. Se a família não tem isso, e esse é o grande desafio da educação, porque a maioria das crianças surdas são filhas de pais ouvintes, vai-se exigir o desafio dos pais, de aprender a língua de sinais, talvez criar uma comunicação caseira, o que acontece muito. Muitas vezes os pais não conversam na língua de sinais em si, a língua de sinais convencional, mas gestos caseiros, coisas caseiras combinadas entre eles. Então o desafio de uma criança surda em um ambiente ouvinte vai ser sempre o de encontrar espaços onde ela possa encontrar a língua de sinais. Várias crianças surdas juntas, vários adultos surdos juntos: esse é o ambiente propício para a criança surda se estabelecer. Não só aprender a língua de sinais, mas aquilo que a língua faz, que é permitir a ela se construir como sujeito, como pessoa.

Você acha que a forma como a surdez tem sido exposta em filmes e seriados é correta?

Se o preconceito existe, se existe falta de conhecimento sobre determinada coisa, no meu ponto de vista, esse preconceito, essa falta de conhecimento só vai ser erradicada se for divulgado, se você expor, se você mostra, se você der a conhecer. Então eu acredito que toda e qualquer iniciativa da mídia em filmes, seriados ou qualquer outra iniciativa que seja, desde que não seja colocar o surdo, ou qualquer pessoa com deficiência em local inferior à sociedade. Se a proposta é levar a conhecer, colocar em pé de igualdade, tudo é válido.

No Brasil a língua de sinais ainda está em construção. O que falta para a LIBRAS se estabelecer completamente?

Eu acredito que uma das coisas que infelizmente tem acontecido são pessoas que estudam a língua de sinais e estão se distanciando dos surdos e isso tem levado a algumas mudanças gramaticais não muito acertadas. O que poderia ser bacana? Caminhos diversos que incentivassem, seja em massa ou individual, profissionais surdos, como pesquisadores e lingüistas, a estudar a própria língua. Quanto mais surdos estiverem estudando e tiverem esses espaços acadêmicos de pesquisa, ajudando a construir alguma convenção da língua de sinais, mais próximo se chega ao que é natural da língua.

Há bastante pesquisa acadêmica sobre esse assunto, tanto da comunidade surda quanto da não surda?

Sim, há muita coisa bacana surgindo. A língua de sinais, embora tenha sido reconhecida e transformada em lei no Brasil em 2002, dos anos 1960 para cá, os lingüistas acolheram a língua de sinais e começaram a entendê-la como língua. Então aí começam os estudos nos Estados Unidos e depois algumas pessoas no Brasil também começam a estudar. A coisa vai tomando corpo e quanto mais o tempo passa a legislação vai garantindo as questões e eu acho que isso tem contribuído para que surdos pudessem ter várias pesquisas, não só de ouvintes e doutores, mas muitas pessoas estão fazendo isso. Olhe na internet: o que aparece de TCCs, conclusão de cursos, teses de mestrado e de doutorado sobre a língua de sinais, língua de sinais na educação, língua de sinais em bilingüismo...

Por que o projeto de lei só ocorreu em 2002?

Seria a mesma pergunta de “por que até hoje pessoas com deficiência não têm acesso a tanto lugares por aí?”. Vai muito mais da conquista da transformação cultural, talvez. Talvez só nesse momento conseguiu haver uma transformação cultural até certo ponto de perceber que existe uma comunidade que tem uma língua e isso precisa ser garantido. E um grupo e vários movimentos de outra linha foram legalmente puxando isso e a legislação foi aparecendo. Mas eu vejo isso de uma perspectiva muito mais cultural, para que conceitos possam ser quebrados e reconstruídos em uma nova perspectiva.

Você vê o País em uma condição positiva para acabar com esse preconceito e garantir a acessibilidade da comunidade surda?

Legislação tem de monte, está tudo garantido em lei. Se o que está na lei fosse realmente cumprido por toda a sociedade, a gente não estaria lutando tanto quanto a gente está. Mas programas de incentivo eu acho que tem bastante, de algum outro setor eu acho que ainda tem algumas outras iniciativas a acontecer, agora, as coisas existem, programas existem, a legislação existe, o que é difícil é a conscientização de empresas, instituições e pessoas de tornarem esses programas, essa legislação, todos esses conceitos prática.

Falta divulgação?

Sem dúvida. Ainda se carrega uma cultura antiga de que a pessoa com deficiência não é capaz, não dá conta, não pode ser um profissional, um presidente, um gestor, um administrador. Então acho que quanto mais divulgação tiver, melhor. Acho que é por aí que deve ser investido.

As pessoas ainda enxergam a deficiência com pena?

Com todas as conquistas sociais, melhorou muito. O surdo em vários espaços é visto como surdo, com uma identidade, com sujeito, como qualquer outra pessoa, assim como eu vejo qualquer outra pessoa com deficiência, seja cego, cadeirante... Muita coisa avançou para caramba. Agora, como sempre, ainda existem pessoas e lugares que, por falta de conhecimento, conservam a mesma atitude de dó, de pena. Faz parte da condição humana de não progresso, muitas vezes.

O interesse de aprender LIBRAS parte mais do meio acadêmico ou está em todas as camadas?

Hoje ele está em todos os espaços. Devido àquela questão da obrigatoriedade do profissional intérprete em língua de sinais, são muitas pessoas que estão buscando para entrar nesse novo ramo profissional, mas também porque existe uma obrigatoriedade legal de que todos os cursos de licenciatura, a partir de 2006, têm essa disciplina de língua de sinais. De fato, educação é onde se tem maior atenção com a língua de sinais porque é onde nasce tudo. A construção do surdo enquanto pessoa, enquanto sujeito é ali na escola.

Nenhum comentário:

Postar um comentário