A Lingua Brasileira de Sinais (LIBRAS) representa o conjunto de gestos e expressões feitas com as mãos para que os surdos se comuniquem, tanto entre eles como com outros interlocutores que aprendam a se comunicar com esses sinais gestuais. Como toda língua, é "construída na cultura onde está inserida", afirma o tradutor intérprete Odirlei Faria. Os registros mais antigos das primeiras tentativas de se instituir uma língua de sinais no Brasil datam do século 19, quando a Imperial Instituto de Surdos-Mudos, em 1857. Um século depois, a acessibilidade aos surdos tornou-se uma obrigatoriedade legal. O decreto-lei 5.226 de 22/12/2005 torna a LIBRAS obrigatória nos cursos de formação de professores (Pedagogia e Magistério), e nos outros cursos superiores, como matéria optativa.
Apesar disso, ainda são necessárias mais ações sólidas e informação para que haja uma acessibilidade de todos os modos, não apenas para os surdos, mas para a sociedade como um todo, como comenta a vereadora Mara Gabrili. Ela é uma das fundadoras da CELIG (Central de LIBRAS), um projeto em três fases da Prefeitura de São Paulo para atender os surdos. O tradutor intérprete Odirlei Faria explica que o projeto iniciado em dezembro do ano passado é dividido em três fases e que vai funcionar inicialmente nas praças de atendimento das subprefeituras de 26 bairros em São Paulo.
A língua de sinais não é apenas um dos grandes símbolos da acessibilidade no Brasil, ela também serve de inspiração para exposições artísticas. O professor e artista plástico Carlos Avelino de Arruda lança em Outubro no Museu de Arte Moderna (MAM) de Salvador a exposição “Imagens de palavras”. Aprender LIBRAS também serve para vencer limitações causadas por acidentes ou doenças, como relatam duas mulheres que partilham a perda da audição.
Vereadora Mara Gabrili comenta sobre os passos que o Brasil dá a caminho da acessibilidade
Mara Gabrili é vereadora em São Paulo e sua história é de constante transformação. Há 15 anos sofreu um acidente que a deixou tetraplégica e mesmo assim sua autoestima não se abalou. Militante das causas ligadas aos deficientes físicos, ela conversa com a equipe do Matéria Amorfa sobre um dos projetos que apoiou, CELIG (Central de LIBRAS) e as políticas públicas sobre acessibilidade aos deficientes físicos.
Como foi o processo para implementar a CELIG e os projetos de lei?
Foi uma demanda do próprio segmento que chegou até mim. A idéia foi criar uma central que trabalhasse com todos esses pontos via web cam.
Houve algum obstáculo para implementar a CELIG?
Obstáculos tecnológicos. Porque por mais que a gente soubesse como, na hora de executar uma questão tão aprimorada como essa demandou bastante da PRODAM, por exemplo, o próprio 156 que trabalhou junto. E ir aprimorando, porque num primeiro momento as imagens elas vinham de uma forma muito ‘congelada’, e isso atrapalhava a comunicação porque a LIBRAS tem que ser fluente, e no final acaba virando outra coisa.
Nas viagens que você faz promovendo acessibilidade, quais as diferenças que você encontra nas políticas daqui e de fora?
Primeiro que tem diferença, cada país tem sua língua de sinais, e dentro de um próprio pais ela muda de região para região, como se fosse um dialeto. O que é uma pena (risos), porque se fosse uma universal, o surdo poderia viajar o mundo inteiro e estaria dominando a língua. A língua de sinais é muito construída na cultura que a pessoa está inserida. Eu estive em países mais velhos que o Brasil, que passaram por guerras e outras questões, até terremotos... Eles têm uma abordagem mais antiga com relação a pessoas com deficiência, e já têm muitas vezes uma postura diferente para o idoso, coisa que o Brasil está começando a aprender a fazer. Eu acho que existe uma abordagem diferente na raiz e no tempo. A gente tem uma secretaria da pessoa com deficiência que acabou de fazer cinco anos. No entanto em Nova York já existe há 35 anos, em Miami já existe há 30 anos. Lá nesse departamento de Miami, perguntar sobre calçadas, eles não sabiam nem responder, porque eles não têm esse problema.
Você acha que falta mais o que para consolidar uma acessibilidade maior aqui?
Informação para os legisladores fazerem leis que realmente melhorem a vida dessas pessoas, e não que melhorem a vida deles. Que chamem a atenção, e pareça que eles trabalhem para o segmento. Mas lei qualquer um faz, agora eu quero ver é fazer lei bem feita. Precisa de informação em todos os sentidos. Informação para o legislador, informação na iniciativa privada, para preparar bem, melhorar os espaços, as qualificações para receber essas pessoas. Informação nas escolas para receber melhor o aluno com deficiência, tanto no que diz respeito a acessibilidade física quanto pedagógica. Informação nas unidades de saúde, nos hospitais, para atenderem com dignidade todas as pessoas. Informação que qualifique todos os profissionais. Informação no terceiro setor, numa entidade que trabalhe para as pessoas com deficiência, se profissionalizar, para a própria entidade se qualificar para exercer esse trabalho para melhor atender esse público. Saber fazer um projeto, saber captar recursos, saber onde ir atrás desses recursos. Informação inclusive sobre quem são essas pessoas, onde elas vivem.
Há aproximadamente 250 mil surdos na cidade de São Paulo. Segundo levantamento feito pela Secretaria da Saúde, eles representam menos de 3% da população paulistana . Conversamos com Odirlei de Faria, 27, tradutor intérprete de LIBRAS naCELIG(Central de LIBRAS), um programa da prefeitura iniciado no final do ano passado para atender aos surdos de São Paulo. Ele fala um pouco mais como funciona a língua de sinais e a evolução da acessibilidade no Brasil.
Por que não existe uma língua universal de sinais?
A língua de sinais é uma língua como qualquer outra de outro país. Assim como não existe uma língua universal oral, também não existe uma língua universal de sinais para todos os surdos do mundo conversar, porque existe a ligação entre a cultura do país, do local e a língua. A história da construção da língua, a história da construção do povo é diferente, então a mesma relação história, cultura e construção de língua é da mesma maneira para a língua oral e para a língua de sinais.
Quais são as diferenças entre os termos surdo, surdo-mudo e deficiente auditivo?
É uma terminologia. O termo correto, que nós utilizamos, é “pessoa surda” ou “surdo”, embora não esteja errado dizer “pessoa como deficiência auditiva”. Os termos para identificar uma pessoa com deficiência auditiva que não são tão acertados são: mudo, surdo-mudo, mudinho... Que não dizem respeito à questão do surdo. Por exemplo: a mudez. A mudez existe, mas não é necessária à questão da surdez. O conceito de surdo-mudo também não tem muita precisão, é um pouco pejorativo.
Na língua portuguesa houve recentemente uma reforma ortográfica. Existe isso na língua de sinais?
No conceito existe, mas não de uma maneira tão formal como na língua portuguesa. A língua portuguesa já é estabelecida, já tem vários autores que escrevem sobre gramática, essa coisa toda. A língua portuguesa já está oficialmente convencionalizada, pronta. A língua de sinais está em construção. A língua portuguesa já tem uma série de regras, uma série de coisas estabelecidas que se partilha na comunidade que usa, e não só na comunidade que usa, mas entre os professores de línguas. Enquanto a língua portuguesa tem tudo isso definido e partilhado, a língua de sinais está sendo construída hoje no Brasil. Ela está sendo construída, inclusive as regras gramaticais, a estrutura gramatical, a ordem fonológica, a sintaxe da língua de sinais. Reforma ortográfica existe sempre na língua de sinais, principalmente por causa do regionalismo. Cada região brasileira possui uma gama de sinais específica que diz respeito ao mesmo significado em outra região, o mesmo regionalismo da língua portuguesa.
Existe alguma técnica para diferenciar palavras parecidas?
A língua de sinais é uma língua, não é uma linguagem somente. Como, por exemplo, o braile. O braile tem certo número de códigos que representam uma infinidade de combinações e, de certa maneira, é uma linguagem, uma linguagem de códigos.
A língua de sinais não é só um espelhamento do português. É uma língua independente. A língua de sinais brasileira é independente do português. A língua de sinais americana é independente do inglês... Aqui no Brasil, a língua de sinais não tem uma fundamentação com o português. Então a entonação... Essa coisa toda vai ser trabalhada na língua de sinais com o conceito da interrogação, da exclamação. O conceito de conjunções, preposições, essa coisa toda entra com um sinal, com uma expressão facial ou corporal. Isso é elemento gramatical na língua. Não usar isso é empobrecer, é tirar uma exclamação, uma entonação, uma coisa da pronúncia.
Quais as dificuldades de ensinar uma criança que nasce surda?
Existe uma diferença, por exemplo, uma criança surda que nasça em uma família de surdos praticamente não vai ter dificuldade nenhuma. Os pais são surdos, a língua de sinais circula ali e ela já cresce com a língua de sinais. Existem estudos que mostram que crianças surdas filhas de pais surdos tem uma caminhar estudantil, social, um caminhar do aprendizado no mesmo tempo que as crianças ouvintes. Agora, se uma criança surda é filha de pais ouvintes, já está estabelecida uma dificuldade de comunicação. Por ser surda, naturalmente ela vai se comunicar a partir de gestos até estabelecer a língua de sinais. Se a família não tem isso, e esse é o grande desafio da educação, porque a maioria das crianças surdas são filhas de pais ouvintes, vai-se exigir o desafio dos pais, de aprender a língua de sinais, talvez criar uma comunicação caseira, o que acontece muito. Muitas vezes os pais não conversam na língua de sinais em si, a língua de sinais convencional, mas gestos caseiros, coisas caseiras combinadas entre eles. Então o desafio de uma criança surda em um ambiente ouvinte vai ser sempre o de encontrar espaços onde ela possa encontrar a língua de sinais. Várias crianças surdas juntas, vários adultos surdos juntos: esse é o ambiente propício para a criança surda se estabelecer. Não só aprender a língua de sinais, mas aquilo que a língua faz, que é permitir a ela se construir como sujeito, como pessoa.
Você acha que a forma como a surdez tem sido exposta em filmes e seriados é correta?
Se o preconceito existe, se existe falta de conhecimento sobre determinada coisa, no meu ponto de vista, esse preconceito, essa falta de conhecimento só vai ser erradicada se for divulgado, se você expor, se você mostra, se você der a conhecer. Então eu acredito que toda e qualquer iniciativa da mídia em filmes, seriados ou qualquer outra iniciativa que seja, desde que não seja colocar o surdo, ou qualquer pessoa com deficiência em local inferior à sociedade. Se a proposta é levar a conhecer, colocar em pé de igualdade, tudo é válido.
No Brasil a língua de sinais ainda está em construção. O que falta para a LIBRAS se estabelecer completamente?
Eu acredito que uma das coisas que infelizmente tem acontecido são pessoas que estudam a língua de sinais e estão se distanciando dos surdos e isso tem levado a algumas mudanças gramaticais não muito acertadas. O que poderia ser bacana? Caminhos diversos que incentivassem, seja em massa ou individual, profissionais surdos, como pesquisadores e lingüistas, a estudar a própria língua. Quanto mais surdos estiverem estudando e tiverem esses espaços acadêmicos de pesquisa, ajudando a construir alguma convenção da língua de sinais, mais próximo se chega ao que é natural da língua.
Há bastante pesquisa acadêmica sobre esse assunto, tanto da comunidade surda quanto da não surda?
Sim, há muita coisa bacana surgindo. A língua de sinais, embora tenha sido reconhecida e transformada em lei no Brasil em 2002, dos anos 1960 para cá, os lingüistas acolheram a língua de sinais e começaram a entendê-la como língua. Então aí começam os estudos nos Estados Unidos e depois algumas pessoas no Brasil também começam a estudar. A coisa vai tomando corpo e quanto mais o tempo passa a legislação vai garantindo as questões e eu acho que isso tem contribuído para que surdos pudessem ter várias pesquisas, não só de ouvintes e doutores, mas muitas pessoas estão fazendo isso. Olhe na internet: o que aparece de TCCs, conclusão de cursos, teses de mestrado e de doutorado sobre a língua de sinais, língua de sinais na educação, língua de sinais em bilingüismo...
Por que o projeto de lei só ocorreu em 2002?
Seria a mesma pergunta de “por que até hoje pessoas com deficiência não têm acesso a tanto lugares por aí?”. Vai muito mais da conquista da transformação cultural, talvez. Talvez só nesse momento conseguiu haver uma transformação cultural até certo ponto de perceber que existe uma comunidade que tem uma língua e isso precisa ser garantido. E um grupo e vários movimentos de outra linha foram legalmente puxando isso e a legislação foi aparecendo. Mas eu vejo isso de uma perspectiva muito mais cultural, para que conceitos possam ser quebrados e reconstruídos em uma nova perspectiva.
Você vê o País em uma condição positiva para acabar com esse preconceito e garantir a acessibilidade da comunidade surda?
Legislação tem de monte, está tudo garantido em lei. Se o que está na lei fosse realmente cumprido por toda a sociedade, a gente não estaria lutando tanto quanto a gente está. Mas programas de incentivo eu acho que tem bastante, de algum outro setor eu acho que ainda tem algumas outras iniciativas a acontecer, agora, as coisas existem, programas existem, a legislação existe, o que é difícil é a conscientização de empresas, instituições e pessoas de tornarem esses programas, essa legislação, todos esses conceitos prática.
Falta divulgação?
Sem dúvida. Ainda se carrega uma cultura antiga de que a pessoa com deficiência não é capaz, não dá conta, não pode ser um profissional, um presidente, um gestor, um administrador. Então acho que quanto mais divulgação tiver, melhor. Acho que é por aí que deve ser investido.
As pessoas ainda enxergam a deficiência com pena?
Com todas as conquistas sociais, melhorou muito. O surdo em vários espaços é visto como surdo, com uma identidade, com sujeito, como qualquer outra pessoa, assim como eu vejo qualquer outra pessoa com deficiência, seja cego, cadeirante... Muita coisa avançou para caramba. Agora, como sempre, ainda existem pessoas e lugares que, por falta de conhecimento, conservam a mesma atitude de dó, de pena. Faz parte da condição humana de não progresso, muitas vezes.
O interesse de aprender LIBRAS parte mais do meio acadêmico ou está em todas as camadas?
Hoje ele está em todos os espaços. Devido àquela questão da obrigatoriedade do profissional intérprete em língua de sinais, são muitas pessoas que estão buscando para entrar nesse novo ramo profissional, mas também porque existe uma obrigatoriedade legal de que todos os cursos de licenciatura, a partir de 2006, têm essa disciplina de língua de sinais. De fato, educação é onde se tem maior atenção com a língua de sinais porque é onde nasce tudo. A construção do surdo enquanto pessoa, enquanto sujeito é ali na escola.
Ter uma deficiência não impede as pessoas de viverem uma vida normal, ter família, uma rotina estável, aprender a lidar com as limitações. Neste post apresentaremos as histórias de duas mulheres diferentes que aprenderam a lidar com a surdez parcial ou total.
"Eu tenho medo" - Cristina Gregório dos Santos, comerciante
Cristina tem uma rotina conturbada. Trabalha 8 horas por dia, de segunda a segunda, em uma pequena lanchonete na estação Brás da CPTM. Atende todo tipo de pessoa e ao constante barulho da estação nos horários de pico. A cada dia que passa, porém, o excesso de ruído a incomoda menos: Cristina vem perdendo a audição gradualmente, devido a uma perfuração no tímpano quando ela tinha três anos. O problema agravou-se ainda mais na infância, pois a criança acompanhava a mãe nos clubes onde ela trabalhava. Nadar era seu maior hobby.
A recomendação médica na época era de que a menina fosse operada até os sete anos de idade. Somente aos 23 anos ela passou pela primeira cirurgia, quando já estava em São Paulo, vinda de Crato, no Ceará, onde nasceu. O médico dizia na época: "sem essa cirurgia não escapa". Cristina poderia ficar completamente surda. Aos 25 fez a segunda operação e sua audição ficou muito sensível. Todo som que ela ouve é muito ampliado. Ela comenta que por causa disso só consegue ouvir em meio ao barulho , pois no silêncio sofre com intensas dores de cabeça, causadas pela alta frequência que vibra o tímpano.
Mesmo assim, ela se interessa em aprender a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), tanto para se comunicar com fregueses surdos, quanto para reforçar a comunicação quando sua audição falha. Com 80% de perda auditiva na orelha esquerda, ela se esforça em manter seu emprego para conseguir dinheiro para a terceira cirurgia. "Eu tenho medo", desabafa Cristina. Ela tem predisposição a infecções, o que complicou as duas cirurgias de reparo de tímpano e a cesariana de seu primeiro filho, que precisou ser refeita devido a uma infecção hospitalar.
"Eu era surda e não sabia!" - Sônia Regina Oliveira, professora
Sônia ficou surda aos 11 anos de idade devido à meningite. Não conhecia a língua de sinais e teve de aprender a fazer leitura orofacial (leitura dos lábios e das expressões faciais). Mesmo assim, só compreendia 40% das palavras ditas em uma conversação. Ela ficava aflita mas o apoio familiar colaborou bastante. "Eu era surda e não sabia! A lingua de sinais e o contato com a comunidade surda me proporcionou um bem estar enorme. Eu podia enfim, trocar pareceres com outro ser que me compreendia na integra, porque sentia na pele as mesmas coisas", lembra.
Ela ingressou na comunidade surda há seis anos, quando aprendeu a língua de sinais. Atualmente dá aulas de LIBRAS na USP (Universidade de São Paulo). A rotina de trabalho e estudo a mantém integrada com outros surdos e com os debates sobre acessibilidade aos deficientes físicos. Criou um blog sobre surdez em abril deste ano. Ele está desatualizado devido às suas pesquisas de iniciação científica sobre surdez. Quando questionada se a comunidade surda é bem exposta na TV e cinema, ela desaprovou o que é visto, pois são produções feitas com objetivos puramente políticos e financeiros.